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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Imagens que constroem imagens


Política| 20/09/2011 | Copyleft 

por Gilberto Maringoni
Carta Maior



Vinte anos nas capas da 'Veja'

Selecionamos 123 capas da revista, de 1993 a 2010. Elas formam uma narrativa surpreendente, quase uma história em quadrinhos da história política do período. FHC é o presidente dos sonhos da publicação. Sério, compenetrado e trabalhador, fez uma gestão exemplar e não está para brincadeiras. O ex-metalúrgico, por sua vez, brinca com a bola e é um demagogo que merece apenas um chute no traseiro.

O presidente Lula sofreu impeachment em agosto de 2005. Quase ninguém se lembra dele. Era um trapalhão barrigudo, chefe de quadrilha e ignorante.

A história seria assim, se o mundo virtual da revista Veja fosse real. Selecionamos 123 capas da revista, de 1993 a 2010. Elas formam uma narrativa surpreendente, quase uma história em quadrinhos da história política do período. FHC é o presidente dos sonhos da publicação. Sério, compenetrado e trabalhador, fez uma gestão exemplar. O ex-metalúrgico, por sua vez, é um demagogo que merece apenas um chute no traseiro.

A visão de Veja é a visão da extrema direita brasileira. Tem uma tiragem de um milhão de exemplares e é lida por muita gente. Entre seus apreciadores está, surpreendentemente, o governo brasileiro. Este não se cansa de pagar caríssimas páginas de publicidade para uma publicação que o achincalha com um preconceito de classe raras vezes visto na imprensa.

Freud deve explicar. Clique no link abaixo para ver a sequência. Vale a pena.

As capas de Veja

P.S. Alertado pelos leitores, corrijo um engano meu no slide 3. Falei que Veja errou ao considerar que uma inflação mensal de 42,9% daria uma taxa anualizada de 5500%. A conta deles está correta. Desculpem

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18519
Fonte: 

domingo, 21 de agosto de 2011

Publicidade na construção da imagem


Propaganda da Nivea é acusada de racismo



A própria empresa admitiu o erro e prometeu não veicular mais a peça







Divulgação
Propaganda da Nivea
Propaganda da Nivea: um aviso de que homens podem se tratar melhor, ou racismo mesmo?
São Paulo - A Nivea foi envolvida num escândalo por conta de uma das suas mais recentes campanhas publicitárias. Muitas pessoas consideraram a peça em questão racista e fãs da cantora Rihanna chegaram a pedir que ela se afastasse da marca – da qual é garota-propaganda.
Na imagem, um homem negro, barbeado e com o cabelo bem cortado, se prepara para arremessar longe uma versão mais "roots" de si mesmo: cabelo afro e barba por fazer. Aconselhando o uso de um produto da marca, a agênia DraftFCB adotou o seguinte texto: "re-civilize yourself", algo como "recivilize-se".
Formou-se uma discussão em torno do assunto e internautas chegaram a fazer comentários como "a Nivea afirma que os negros não são civilizados", enquanto outros diziam que a campanha era "assumidamente racista".
A ação, entretanto, é composta por outra peça, com um homem branco – também bem afeiçoado, de terno e gravata - segurando uma cabeça barbuda e cabeluda. O texto diz que "Sin City não é uma desculpa para se parecer com o inferno" e revela a real intenção da ação: mostrar que os homens podem se cuidar melhor. Parte das pessoas que comentavam a polêmica dizia exatamente isso.
Para não alongar a discussão, a própria Nivea se manifestou. Pelo Facebook, a marca agradeceu pelo feedback e assumiu que a peça é "inapropriada e ofensiva". "Nunca foi nossa intenção ofender ninguém, e por isso estamos profundamente arrependidos". Segundo a empresa, o anúncio não será mais usado.
As informações são do Advertising Age.

Fonte: http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/propaganda-da-nivea-e-acusada-de-racismo

terça-feira, 29 de março de 2011

Que imagem você tem das mulheres?



Que imagem você tem das mulheres?

29/03/2011 

por Letícia Sorg é repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.

Feche os olhos e pense numa mulher famosa. Não sei em quem você pensou, mas são grandes as chances de essa mulher ser magra, alta, ter cabelos longos – provavelmente lisos –, seios generosos e bumbum perfeito. Não é coincidência que seja assim. A maioria absoluta das mulheres que vemos na TV, no cinema, nas revistas seguem essa receita para o sucesso: a beleza.
Claro que há muitos caminhos para o sucesso, mas ser bonita – e se tornar modelo-atriz-apresentadora – virou uma versão feminina do sonho dos meninos de ser jogador de futebol. E nós não estamos fazendo muito para mostrar que há, sim, outras possibilidades para um futuro bem-sucedido. Essa é a tese do documentário Miss Representation – cujo título brinca com “misrepresentation” (representação errada, deslocada) e “Miss Representation” (algo como representação delas). Exibido pela primeira vez no Festival de Sundance, o filme ganhou espaço em algumas salas de Nova York e deve ser transmitido pelo OWN, canal de Oprah Winfrey, em outubro.
O foco do documentário, dirigido por Jennifer Siebel Newsom (na foto), é como a mídia em geral retrata as mulheres e como, de certa forma, essa imagem restringe as ambições das meninas no futuro. (Link do Documentário Newest Miss Representation Trailer (2011 Sundance Film Festival Official Selection) from on Vimeo.)
As meninas entrevistadas dizem coisas como: “As pessoas não dão valor para a inteligência da mulher, só para seu corpo”; “Tenho amigas que vão ao banheiro colocar 5 kg de maquiagem, mas você está na escola para aprender!”; “Lembro-me de me preocupar com meu peso na quinta série. Agora estou na nona série e continuo preocupada com meu peso”.
Jennifer Newsom afirma que fez o filme para dizer que as mulheres têm que ser julgadas por sua capacidade, não por sua aparência. O trailer mostra como as mulheres na política – como Hillary Clinton e Sarah Palin – tinham que responder também por suas rugas ou por seus seios durante a campanha.
O projeto teve o apoio de políticas como Condoleezza Rice e Nacy Pelosi, atrizes como Jane Fonda e Geena Davis e apresentadoras de TV como Katie Couric. A atriz e ativista Rosário Dawson resumiu a importância da mídia para as meninas: “Você não pode ser o que você não pode ver”. Por isso, precisamos de mais do que peitos, bundas e beleza para inspirar as garotas a buscar um outro caminho para o futuro.
Um exemplo da importância da imagem para as crianças foi a recente eleição de Dilma Rousseff à presidência do Brasil. A Isabel até escreveu que sua filha chegou a ficar em dúvida sobre seguir a carreira de princesa ou presidenta…
Corro o risco de ser tachada de “a feminista chata” do Mulher 7×7 com esses posts que faço. Mas acho importante nossas meninas terem modelos de sucesso inspiradores – e variados. E você, o que acha da tese do documentário: é importante reduzir a quantidade de mulheres-objeto para que as meninas possam se sentir mais livres para pensar no futuro?
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Veja também: sobre propagandas da Bombril
Maria do BBB11 e a revolução das periguetes

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Indústria do funk - construção de imagem, lucro, preconceito...

Crianças, Sexo e Dinheiro: a vida (e a morte) pós-trafico em comunidades pacificadas



por Felipe Barcellos (Blog pai de menina)



Tem filha? Então digite “bonde das novinhas”, “novinhas do funk”ou “novinhas metendo” no Google ou no You Tube. Vá, pense fora da caixa e faça isso. Agora imagine uma das meninas que você viu, com cerca de 13 idade anos do Complexo do Alemão (isso vale para outras comunidades e até mesmo bairros classe média da Zona Sul carioca) cobra cerca de R$100,00  por programa (camisinha, esqueça - é moeda de troca fazer sem preservativos, chegando a dobrar o cachê), sendo que R$ 40,00 ficam para ela e R$ 60,00 para o cafetão ou cafetina (em muitos casos, membro da família). 


Esqueçam os dias livres. Quando muito, um dia de folga para ir ao Shopping. Obviamente, os dias de menstruação são resolvidos fazendo sexo com diafragma ou praticando apenas sexo oral ou anal. Elas não querem descansar. 

Agora convença essa menina que vive cercada de miséria que ela poderia largar essa vida e ganhar em um mês metade do que ganha por semana lavando banheiros no McDonalds do shopping mais próximo ou trabalhando como empregada doméstica. Ela vai rir de você, leitora. Shopping para ela é um lugar para passear com as amigas, azarar, conseguir alguns clientes (praças de alimentação, em qualquer shopping, são palco de um tipo muito interessante detrottoir)  e torrar os R$1500,00 que ela ganha por semana, trepando cinco vezes com estranhos (ou parentes, ou conhecidos, ou vizinhos, ou amigos da escola).

Muito bom que o Estado tenha resolvido arcar com o custo social de melhorar as condições de vida em área dominadas pelo tráfico. Mas existe uma seara onde ele não consegue entrar: na vida privada.

Famílias que cresceram sem planejamento e sem esteio moral jamais conseguirão dar suporte emocional e educacional para crianças em formação em um ambiente onde o estimulo do “sucesso” fácil é diário. Menos pela mídia - jovens carentes passam menos tempo diante da TV do que os sociólogos antiquados acreditam -, mais pelos códigos da própria comunidade. A indústria do funk criou uma base sólida para a exploração sexual precoce. 

Crianças pequenas dançam e cantam letras de conteúdo sexual perverso, se não na forma (mulheres que assumem o papel de brinquedos sexuais dos homens da comunidade, sem culpa) na falta de diálogo para contextualizar o que repetem como um mantra, aos 8, 9 anos de idade. Basta escutar a programação vespertina de rádios como a FM O DIA, para terem a dimensão do que estou dizendo.

Em áreas onde gravidez adolescente apresenta características de epidemia, fica difícil encontrar em uma mãe ou uma avó algum suporte que fuja ao estereótipo. Se antes elas eram “educadas” cada vez mais cedo para serem as escolhidas como mulheres dos traficantes dominantes, agora, com a guerra o tráfico, elas vão migrar em massa para a prostituição, seja nas ruas locais, seja virtual (mais difícil de combater) oferecendo seus serviços via MSN e Orkut. 

Enquanto fora do Brasil os pais estão preocupados com o “sexting”, aqui no Brasil as meninas aproveitam os recursos de comunicação e criação de imagens dos celulares para vender seus corpos  e produzirem imagens de sua nudez, a qual é precocemente valorizada nas relações pessoais e de comércio sexual. Não, crianças não podem ter privacidade digital, como já comentei em outro texto.

Visite um cinema multiplex da zona oeste carioca ou a praia da Reserva, no Recreio dos Bandeirantes, para entender a dimensão do problema. Uma garota com um celular na mão e acesso remoto (longe de casa e dos olhos protetores da família - quando existem) a redes sociais é uma empresa do sexo, capaz de comunicação eficiente e discreta com sua clientela.

Elas não são criminosas. São vítimas. E o pior: vítimas em uma faixa etária na qual acham que estão repletas de razão. Um garota que ganhe R$ 75 mil ou R$ 80 mil reais por ano, livre de impostos, não é vista como algo indesejável em uma família onde a renda combinada dos pais não chega R$ 2 mil mensais. E para justificar a “renda extra” daquele núcleo familiar, basta que a menina faça algumas apresentações como dançarina em um baile funk. Vira “artista” e lava o dinheiro da prostituição. Está fechado o círculo vicioso.

Já a turma da cafetinagem leva entre R$ 375 mil e R$ 500 mil por ano, sem ter que trocar tiros com a polícia ou criar logística de quadrilha para armazenar e proteger drogas, vender gás clandestinamente ou criar centrais de TV a cabo pirata. É o dinheiro sujo mais fácil que alguém pode ganhar. Cada vez mais os traficantes e milicianos estão migrando para a exploração da prostituição infantil e adolescente como fonte de renda sem dor de cabeça.

E essa dor, essas vidas perdidas precocemente, os tiros, carros blindados e rasantes de helicóptero não serão capazes de “libertar”.

Aqui, a solução para o problema está para frente, nos próximos 10 anos.  Assim que a hipocrisia do Estado cessar e o foco passar a ser planejamento familiar e esforço sócio educacional como moeda de troca em políticas de distribuição de renda. Chega de gerar massa de manobra, corpos dóceis e eternamente agradecidos à bolsa-miséria. É hora de bolar uma geração oriunda da pobreza capaz de tomar as rédeas desse pais.


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EXERCÍCIO 1: Com base nas aulas, analise o texto acima, pesquise sobre o funk e elabore um texto mostrando como a chamada "indústria do funk" constrói "seus valores no imaginário social". Argumente e exemplifique como se dá (meios) a construção dessa imagem. Não se esqueça de citar as fontes pesquisadas. 

EXERCÍCIO 2: Comente a frase de Janaína Medeiros, no livro Funk carioca: crime ou cultura? :
"Relatar como o funk tem sido criativo e persistente para sobreviver e derrubar preconceitos, apesar da mídia e a sociedade tentarem demonizá-lo e tornar seu público invisível (jovens negros, pobres e favelados). Mesmo sendo ele hiper visível nas ruas, nos pontos de ônibus, nas escolas, nas filas de emprego, nos sinais de trânsito” (p.10). 


EXERCÍCIO 3: Comente a frase de Mr. Catra: “Ninguém está incitando ninguém. Ninguém vira bandido por causa do funk. O funk é uma crônica. Junto com muito suingue, muita pancada, muita dança, muito suor. O que acontece é que as pessoas ainda não se acostumaram a conviver com a realidade dos outros, tá ligado?” (fonte aqui)

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Veja também:

1) Monografia: Direito e cultura popular: o batidão do funk carioca no ordenamento jurídico




2) Vídeo: 90 dias com Catra 




3) Livro: Funk carioca: crime ou cultura? O som dá medo. E prazer.

Veja sumário aqui

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Vivendo num mundo super-equipado



Foi-se o tempo em que o vento nos mares determinava o rumo da navegação. Assim como faz tempo que a demora das viagens não depende mais do humor dos cavalos. Se alguma coisa pode-se dizer sobre a diferença entre nós e os “antigos” mais próximos e a constante e paulatina ilusão de controle sobre os chamados “imponderáveis da vida cotidiana”.

Dentre eles, os surpreendentes viesses da alma humana.

Arlie Hochschild mostrou nas suas pesquisas o processo de treinamento dos sorrisos das comissárias de bordo da Delta Airlines descrevendo, além do esforço físico, o “esforço emocional” exigido pela empresa. As funcionárias chegaram a confessar em entrevistas que o sorriso “estava nelas, mas não era delas”. A empresa tinha lhes roubado a "alma". 

Outro paralelo pode ser feito com os objetos que compramos diariamente. Os motivos das nossas escolhas são muitas vezes orientados por fatores que desconhecemos completamente.Quem sabe se analisarmos a "alma" destes objetos descubramos alguma coisa?. São estes aspectos "imponderáveis" da alma dos objetos que o chamado "mercado" controla primorosamente.

Basta olhar com atenção o desenho de algumas mercadorias de consumo cotidiano para perceber que há tempos impõe-se uma estética do “sobre-dimensionamento” nestes objetos. Compramos, por exemplo, sapatos feitos e desenhados para quem vai escalar montanhas ou caminhar em trilhas íngremes. As cidades no Brasil e outras partes do planeta estão cheias de automóveis preparados para o rally Paris-Dakar. Muitas das nossas roupas poderiam ser usadas em filmes de Indiana Jones e assim por diante. 

Esta percepção sobre a hiper-dimensão de aspectos simbólicos no capitalismo já tinha sido apontada por Theodor Adorno quando analisava o uso de uma estrutura complexa como é uma orquestra sinfônica para a gravação de um tema de três minutos num comercial de sabonete. A sobre-dimensão de elementos “intangíveis” no mundo atual chegou ao nível das representações. Principalmente nas representações cartográficas das cidades. 

Isto devemos à internet. O Google Earth, por exemplo, nos oferece escalas das cidades que coloca o internauta na situação virtual de dominação espacial e geográfica de um piloto de guerra. Existe até um recurso por meio de atalhos no teclado em que o usuário passeia-se pelos céus de qualquer cidade num Caça F16 que é um avião de bombardeios. Os detalhes das fotografias feitas pelos satélites disponibilizam detalhes que são para a maioria dos internautas-espectadores desnecessários para as demandas do dia a dia.

Vemos como no âmbito das representações estamos servidos de um hiper-realismo que, em verdade, não necessitamos. Assim como acontece com os celulares com GPS, relógios com manómetros analõgicos, automóveis, tênis, roupas e canivetes multiuso aparelhados de lanternas e bússolas.

Quanto poder ilusório queremos consumir? Quanto poder “real” estamos transferindo para nossos Big-Fathers? O tempo nos mostrará um dia o tamanho e a dimensão da ignorância construída a milhões de mãos.



Abraços do Eladio


Conferir: Howard Becker no livro Falando da Sociedade. Anthony Giddens no livro Sociologia, Theodor Adorno em algum parágrafo da coleção “Os Pensadores” que agora tenho preguiça de olhar. E, principalmente, é útil conversar com meu amigo Fernando Campos Leza para aprender um pouco sobre divagações e delírios em recursos informáticos.

Imagem: Catedral submersa. Eladio Oduber / Lápis grafitti sobre papel comum

SEGUNDA-FEIRA, FEVEREIRO 21, 2011


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Exercício:

Reflita sobre a frase: Quanto poder ilusório queremos consumir?


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Construção social da imagem

Exercício: Análise o texto abaixo e destaque os elementos (frases) que a autora utiliza para demonstrar como se constrói a "imagem" da mulher brasileira. Avalie, ainda, se você tem a mesma "imagem" que a autora do texto descreve e explique os seus motivos, seja para concordar ou discordar.  


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Mulher brasileira e racismo (parte 1)


Eu tô azeda com um episódio de racismo que vivi recentemente na Europa. Resumindo bem a situação, estou namorando com um europeu « loiro dos zôio azul » e fui considerada (pelas costas, é claro), como uma aproveitadora, que está com ele para obter cidadania. Bom, passei da fase 1 = « sangue nos zóio » + « provar que não é verdade » para a fase 2 = « tentar digerir e racionalizar o assunto ». Pois bem : em plena era tecnológica, resolvi dar uma googlada em « mulheres brasileiras visto », e eis que me deparo, via um blog, com a capa da revista « Focus », com uma bunda e a chamada « Os segredos da mulher brasileira ». Dispensável comentar o teor da capa, certo ? (Afinal, uma imagem vale mais que mil palavras minhas).


Fonte original: Revista "Focus" (agosto/2010)
Pois bem : resolvi correr atrás da reportagem e, por incrível que pareça, ela é bem menos infame do que a capa. Em geral, ela traz depoimentos de casais luso-brasileiros (mulher brasileira e homem português) e também relata alguns estudos feitos por acadêmicos sobre a questão da imagem da mulher brasileira construída pelos europeus e pelas europeias. Como eu sou chata, resolvi deixar a parte dos depoimentos fofinhos de casais apaixonados (#manoelcarlosfeelings) de lado e me concentrar na questão dos estereótipos construídos sobre nós, mulheres brasileiras, aqui na gringolândia. Vale dizer que os estereótipos que eu vou analisar aqui partem de reflexões minhas sobre a leitura da reportagem, ou seja, advêm de um contexto específico, sem a pretensão de generalizar isso universalmente, ok ?
1- Bom, o primeiro estereótipo, é aquele que tá todo mundo careca de saber : a imagem da mulher brasileira é uma imagem sexualizada. Traduzindo em bom português : “Mulher brasileira é tudo puta ! “. É interessante a gente parar e se perguntar : “Por quê que é assim ? “, o que nos leva a respostas de origem histórica :
“A questão da raça (sic) está inextrincavelmente ligada à questão da sexualização da mulher brasileira : a imagem englobante, por assim dizer, é a imagem da mulata, indicando as fortes relações entre as hierarquias sociais,  os estereótipos de sexualidade alterada e o passado colonial. O Brasil, sempre no lugar do mestiço, acaba sendo ele todo transformado no corpo feminine da mulata: como tal, é sexualizado.” (Igor Machado, USP, p. 122)
Trocando em miúdos, a imagem sexualizada da mulher brasileira vem do período colonial.
Mas aí rola o questionamento (racista, claro): “Pô, mas você é tão branquinha! Como pode ser associada a uma mulata/ escrava/mucama, etc? » Bom, o que acontece, na contemporaneidade, é que tal imagem é reforçada, por exemplo, pelas novelas e também pela indústria de turismo, responsável por difundir estereótipos brasileiros mundo afora, o que inclui, naturalmente, o carnaval e todas as mulheres com pouca ou nenhuma roupa relacionadas a ele: “muitas pessoas pensam que a liberdade do sambódromo se extende à vida cotidiana” (Ana Letícia Barreto, Universidade de Évora, p. 125).
Daí não importa se eu sou branca, preta, amarela, azul ou verde : SE sou brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa, LOGO, sou libertina. Qualquer associação com a contemporânea imagem das « piriguetes », que nós mesm@s fazemos no Brasil, não é mera coincidência. Aplique  esse estereótipo indistintamente e pronto : a fórmula « brasileira é tudo puta »  tá aí, prontinha para uso da parcela desinformada da comunidade europeia. Ou seja : o preconceito que temos contra uma parcela das mulheres da nossa população, a parcela desinformada da comunidade europeia tem contra todas. Adicione uma boa pitada de xenofobia secular e você tem a fórmula completa, que inclui a questão da « mulher aproveitadora », que vem no combo do estereótipo da piriguete, certo ? Repare como a coisa é recursiva ! Pra demonstrar melhor a recursividade da coisa, ia fazer a última fórmula com « que’s » (#minimalismofeelings), mas deu mais certo com « logo’s » :
Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa, LOGO sou libertina, LOGO sou aproveitadora, LOGO quero subir na vida fácil, LOGO quero me casar com um europeu PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha (e, ASSIM, subir na vida de um jeito fácil, sendo aproveitadora (= usando as minhas habilidades sexuais –sendo libertina e usando pouca roupa, mesmo que, na prática, a gente se vista com 500 roupas de frio. Mas o imaginário da pouca roupa não desaparece, entende ?)
Isso nos leva à fórmula silogística mais simples :
Sou uma mulher brasileira, LOGO quero um passaporte europeu
Ou, como toda fórmula recursiva, pode se estender « ad infimitum », neste caso, dependendo das cores que se dá ao contexto. Por exemplo :
Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa, LOGO sou libertina, LOGO sou aproveitadora, LOGO quero subir na vida fácil, LOGO quero me casar com um europeu, LOGO quero engravidar de um europeu, PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha e obter uma pensão em euros para sempre, amém.
No fim, todos os caminhos levam ao inevitável estereótipo relatado em quarto palavras: “Mulher brasileira é tudo puta ! ” Não é incrível ?
Se você teve uma epifania ao ler este post (versão “Manoel Carlos ” para : “se você sobreviveu ao fim deste post sem ficar tont@ com tantas fórmulas pra explicar uma coisa tão banal e que todo mundo já tá careca de saber”), não deixe de acompanhar o próximo, em que eu desvendo o estereótipo # 2 relacionado à mulher brasileira (este, um pouco mais otimista, pra não desanimar a cara leitora do meu folhetim !). Segure a sua ansiedade durante 15 dias e não deixe de ler o próximo capítulo!

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Veja também:


Artigo científico:


Mulheres brasileiras na mídia portuguesa



Reportagens:

Imagem da mulher brasileira em Portugal vira tema de estudo de artista paulista



Opinião:


A imagem das brasileiras


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